Traducciones de La educación física por Manuel de Freitas

Diez poemas de La educación física traducidos al portugués por Manuel de Freitas para la revista Telhados de Vidro (nº17, noviembre 2012).

Quisemos entrar na noite
com o ofício mais brilhante.
Um jovem descobre pela primeira vez
as folhas e os campos.
Sabes quantas coisas estão a agitar-se nestes dias
ao mesmo tempo que ele?
Cada quarto em que foste acolhido nestes anos
foi uma guerra para aceitar
que é necessário dormir
e esperar anos melhores.
Um dia sentas-te numa mesa
com outros jovens completamente feridos
e de repente ficas mais velho.
A chuva está lá fora e olhais-lha
e não sabeis por que não tendes força
para dormir todos juntos
quando é o único passo que vos falta dar.
Esta manhã vemos as nossas vidas inteiras
e perguntamo-nos quem será o primeiro a morrer.

Digo-te que quando durmo muito
me sinto culpado.
Merecemos nós esta vida?
Por que não saímos para a chuva
e corremos juntos através dos campos?
Que carga levamos aos ombros?
Por que não o fazemos? Por ser muito cedo?
Por que não saímos para a chuva?
Porque assim a nossa vida
seria demasiado clara?

 

Um dia na nossa juventude é suficiente
para compreendermos que nunca fomos jovens.
Mas que importa o que acontecer
se somos capazes de falar de qualquer coisa,
se tudo transformamos para continuarmos juntos.

Quando falas há apenas imagens
e quando há imagens penso apenas
no que no pensarás delas, e de nós próprios.
Penso no que dirás depois
e naquilo que nunca dirás.
Este movimento que faço na tua direcção,
em direcção à tua vida, vamos perdê-lo,
estás a perceber?

É tarde, mas tinha de to dizer,
não estou preparado para ser um movimento,
para ser parte de uma imagem
onde tu estás.

Somos um tempo novo numa casa antiga.
A terra gira mas nós
somos o único movimento
que vale a pena reter.
A nossa beleza é a de um movimento
impossível de demonstrar.

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O amanhecer é uma vida inteira.
Durante todo o ensaio a tua atitude foi a mesma.
Julgas que em algum amanhecer
encontraremos as armas para passar o dia?
Julgas que depois de acordar contigo
pude suportar na minha vida uma manhã?

Neste amanhecer posso já cobrir-te
com toda a nossa história.
Preferi encontrar-me contigo todas as noites
a encontrar-me contigo ao acordar.
A luz entra e altera-se.
A tua atitude é a minha vida inteira.

 

Ninguém levou a juventude
tão a sério como nós.
Amamo-nos só de recordar
que a vida acabará amanhã.

Fazemos do corpo uma história
para que possamos morrer no palco.
Vou contar-te como tudo isto começou,
por que te pus nesse local do cenário,
por que tomei cada decisão,
por que pus ali o público, por que desejei
que lhe fosse incómodo ver-te.

Assim passamos o tempo a falar da morte
debaixo dos lençóis da juventude
que vai fugindo, e adormeces,
e puxas o lençol,
e deixas-me nu a falar sozinho,
e eu não tenho forças para puxar,
para me manter coberto,
e a minha juventude esfria cada noite um pouco mais.

 

Transformas tudo aquilo que sou
na maior beleza
ou na maior catástrofe.

E eu amo-te, a ti que transformas
tudo aquilo que faço numa juventude nova,
em lugares a que poderei regressar
daqui a muito tempo e encontrar-te.
Dirigiste a minha educação
apontando-me uma arma
e dizendo-me palavras de amor.
Que farei com todas estas vidas,
deixarei que se destruam para que falem de nós
ou virei cuidar delas todos os dias?

Que esperam de nós,
que o nosso amor não termine?
Que juventude, que amor, que vida aplaudem
a tua ou a minha?

O teatro serviu-me unicamente
para saber como quero viver
quando a juventude terminar,
para saber exactamente como quero ser amado
quando acordar.

 

Eu já acordei
em todas as casas da cidade,
em todas as moradas possíveis.
Eu fui feliz quando acordei
com muitas mulheres e muitos homens
que eram capazes de recordar
por que estávamos ali.

Compreendi que entre todos
tínhamos criado a noite,
nessas manhãs não quis inventar o dia,
quis que alguém o inventasse para mim.

É imenso o amanhecer.
Não sei quantos somos hoje debaixo dos lençóis,
não posso destapar-vos,
não quero acordar-vos.
Volto a adormecer,
nunca vos contei, não sei quantos sois,
quantos somos, quantos seremos,
sei apenas que somos suficientes.

 

Gostaria que alguém dissesse de mim:
Esse jovem amou loucamente
e um dia deixámos de o ver.

Passou o dia pensando como chegar
a esse corpo onde ninguém estivera ainda.
Era apenas isso o que o mantinha aqui
e esse corpo era o único mundo
que gostaria de mudar.

O meu corpo dormiu com os piores corpos.
Que parque é este? Que precipício?

Amor, cuido de todas as tuas palavras
mas o nosso passeio deve continuar.

 

Viste os corpos mais difíceis
e não existe neles um único instante
que se pareça com outro.
Durante quanto tempo serás
aceite no mundo?
Quando se darão conta
de todas as coisas que tens de fazer
e que não podem esperar?
Atreveste-te a ter uma vida
que fosse o exacto oposto
daquilo que a tua doença precisava.

O teu corpo foi o único que me exigiu,
que me confrontou com o que havia
para além deste instante.
Transformo em dor tudo o que toco
e continuamos juntos para nos vigiarmos.

Amamos os nossos corpos feridos e tratamos deles
como se tivéssemos saído um do outro.
Os nossos corpos suportam a fragilidade
que a mente não consegue suportar.

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Se falo de estrelas é somente
para que se forme uma nova constelação.
Sei que não há homens na terra
com quem possa falar das constelações
que se formam numa única noite e desaparecem.

Como posso continuar a conhecer-me?
E se eu acabar aqui?
Há uma hora da noite em que pensas
«De que serve a um jovem conhecer-se melhor
se amanhã terá de passar
pela prova de sempre?».

Se conhecer-se é guardar o segredo durante anos
nós conhecemo-nos.
Se só pudesses conhecer mais uma pessoa,
escolhias-me a mim?
Se só pudesses conhecer mais um dia
seria este?
Se só pudesses viver mais uma noite,
optarias por dormir?

Assinei em todas as ruas,
assinei as vossas vidas, comprometi-as.
Assinei as estrelas, as estradas,
as viagens, o Norte e o Sul.
Assinei as noites, assinei a luz.

 

Amor, de que serve continuarmos a dançar
agora que todas as coisas se começaram a mover?

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