CARTA para “FICA ENTRE NÓS


POR JOÃO RICARDO

                                                             Rio, 2 de setembro de 2025


Querido Pablo,

Na primeira cena que me vem à mente, eu corria com as crianças para cima do palco, tentando me proteger da chuva que parecia prestes a cair, pela primeira vez, em quase duas semanas que estávamos naquela pequena cidade. Ouvimos os trovões bem de perto, sob a frágil cobertura de metal desse palco, no meio da praça central. Mas eu não era mais uma criança nessa cena. Tinha quase vinte anos, e naquela tarde fiquei responsável por cuidar de garotos de oito, nove, dez que conhecia há poucos dias. Eles eram de Sigefredo Pacheco, no interior do estado do Piauí, onde a Caatinga vai devagar se tornando a Amazônia.

Essa cena fazia parte do Projeto Rondon, um programa criado pela ditadura militar brasileira e recriado no primeiro governo Lula para levar grupos de universitários do Centro-Sul do Brasil até regiões pobres do Norte e do Nordeste. Para os militares, era uma das várias iniciativas de integração nacional, isto é, de colonização da Amazônia; para os democratas, uma lição de cidadania. Sigefredo Pacheco, por acaso, foi o nome de um senador da ARENA, o partido da ditadura. Em outras palavras, nossa obra consistia em passar duas semanas realizando ações socio-educativas previamente discutidas com as lideranças locais. Entre outras coisas, fiquei responsável pelas sessões de cinema que o nosso grupo resolveu produzir no mesmo palco onde, agora, eu e as crianças nos abrigávamos.

As crianças, todos meninos, morriam de medo do som do céu do sertão, que até então eu só conhecia da literatura. A chuva demorava a cair. Depois de meses de seca, esperávamos ainda mais um pouco, esperando que o céu cumprisse a promessa que os trovões anunciavam. Eu olhava para o horizonte branco que se estendia por todos os lados e pensava. Do outro lado da praça ficava a igreja da cidade, cujo alto-falante, instalado no campanário, anunciava com canções religiosas incompreensíveis, todas as manhãs e as noitinhas, o início da missa. Alguns dias antes, por indicação dos agentes da prefeitura, eu mesmo tinha entrado ali para acertar com o padre a realização das sessões de cinema, de forma que a Eucaristia e os filmes, a religião e a arte, pudessem conviver em harmonia. Cheguei lá depois do final de uma missa, e o pároco me pediu que voltasse mais tarde.

Esta é a segunda cena. Encontrei outra vez o padre, que me levou até a sacristia, e de lá para a sua residência, que era contígua, enquanto me perguntava, com muito interesse, quais as ações que faríamos na praça, como tínhamos parado ali, de onde eu era. Até onde lembro, foi rápido conseguir a liberação do palco nos horários dos filmes. Enquanto eu respondia, o padre tocava os meus braços, os meus ombros, falava bem perto do meu rosto. Quando eu disse que era do Rio de Janeiro, ele se animou e começou a contar que já esteve aqui, muitos anos antes, em uma conferência de seminaristas. Em algum momento, percebeu o meu suor. Eu lhe disse que tínhamos passado o dia inteiro tentando limpar um terreno ao lado da escola da cidade, para transformar em uma horta. Então ele me convidou para tomar um banho. Eu gentilmente recusei, e voltei ao assunto do Cristo Redentor e dos outros pontos turísticos que ele contava ter visitado com seus colegas. Um pouco depois me despedi. Ele perguntou mais uma vez se eu não queria tomar um banho, porque estava quente. Eu agradeci e fui embora.

Acho que demorei um pouco para entender do que tinha se tratado aquilo. Ainda não entendia muito bem quando me abriguei sob o palco. Olhava agora para os meninos, que se agarravam a mim com medo dos trovões. Tínhamos ficado amigos; as crianças da cidade foram com quem mais facilmente nosso grupo se aproximou durante nossa breve estadia. Já era a véspera da nossa despedida, e eu pensava, com tristeza e humildade, que nem os nossos filmes, nem as nossas ações, seriam suficientes para mudar qualquer coisa da vida daquele lugar. Restava torcer para que a chuva passasse antes do horário da nossa última sessão de cinema, naquela noite. Então escutamos, mais uma vez, os alto-falantes da igreja.

Tento traduzir essas cenas diante do seu trabalho, Pablo, que em português chamamos Fica entre nós. A atitude cidadã em face de uma situação como essa seria sem dúvida avisar às autoridades municipais sobre um possível comportamento abusivo do líder católico daquela comunidade, ou talvez, se eu pensasse que a prefeitura não teria poder ou interesse para, enfim, averiguar a situação, reportar a minha experiência aos supervisores do Projeto Rondon, que não estavam conosco em Sigefredo, mas que logo encontraríamos na capital, Teresina. O que eu fiz então foi apenas comentar o que tinha acontecido com os meus companheiros e companheiras, estudantes do Centro-Sul, que compartilharam alguma sensação de estranheza e alguma sensação de normalidade. Cenas como essa fazem parte da peripécias conhecidas do país. Mas como conversar sobre o assunto com os meninos da cidade, os nossos amigos?

Naquela época, eu estudava aqui, na PUC, uma universidade católica que tem disciplinas obrigatórias sobre a ética cristã e o fenômeno religioso para todos os seus alunos. Alguns meses depois de voltar do Piauí, em uma dessas aulas, no meio de uma espécie de dinâmica coletiva, contei a história da minha conversa com o padre, sobre o qual, na verdade, eu sabia muito pouco. Como não tinha sido uma experiência traumática, como eu já tinha idade para me defender, pude contar o que aconteceu simplesmente recriminando a atitude do padre. Então uma atriz, minha amiga, fez um contraponto observando que aquele corpo, o corpo de um padre, não passava de um corpo com os desejos que todos nós temos, mas submetido por um dogma antigo. Era, afinal, uma reação natural. O que a gente esperava que acontecesse? A professora, uma religiosa, aparentemente apreciou o dissenso, talvez aliviada de que dividindo a questão entre o livre-arbítrio e a moral fosse possível não responsabilizar demais ninguém.

Quando assisti pela primeira vez a sua peça, Pablo, no ano passado, lembrei desse caso, como também lembrei das agressões sofridas no primário, em um colégio católico, pelos meus modos afeminados e porque não jogava bem futebol. Todos podemos reconhecer essas situações. Mas o título, que agora nós mudamos, foi o que mais chamou a minha atenção. “Todo corpo é uma enciclopédia da dor,” você diz na sua carta, “todo corpo foi educado e atado para que isto se reprima e se apague,/ para que a dor, o inconfessável, o inaceitável,/ fique entre nós.”

Pode ser que eu estivesse passando por um momento especialmente raivoso com os iluministas e o século XVIII, mas fiquei intrigado pela forma como você, com isso, parecia repetir a estratégia de quase trezentos de idade, de combater a religião e o dogma com a razão. Lembro, na época, de fazer algum comentário desse tipo para você. Óbvio, a enciclopédia é também um objeto da infância e às vezes pode significar, para pequenos leitores solitários, uma janela por onde descobrir o mundo que existe fora de um ambiente sufocante como o que você descreveu na sua obra. Por um lado, a estratégia racionalista pode coincidir com o comentário da atriz sobre a repressão sofrida pelo padre. Mas num tempo em que estamos já tão cansados de ter razão, em que já desconfiamos talvez até demais da inteligência, incapazes de destrinchar o sonho da razão do cinismo e das maiores violências dos últimos séculos, pareceu para mim curioso apostar em uma enciclopédia.

Mas então, por outro lado, a aposta do seu trabalho na enciclopédia era difícil de entender fora do título. Não é uma enciclopédia o que você escreve. À parte isso, o que é uma enciclopédia da dor? Eu seria de defender de bom grado que as enciclopédias da dor são na verdade as sagradas escrituras; as outras, as humanistas, são indolores. “La enciclopedia del dolor” também é o fracasso da razão. Você dirige uma carta a um ator tentando descrever a ele o que seria necessário para criar essa obra. Na carta você mesmo diz: “Eu suponho que alguns esperam uma peça completamente anticlerical/ ou um panfleto antirreligioso./ Nada mais distante da realidade./ Me interessa saber o que os padres pensam do que aconteceu./ De verdade, eu queria sentar com eles e pensar.”

A urgência da carta, que é a tentativa de criar uma obra, a tentativa de fazer uma tradução, vem, além disso, muito depois do ciclo de trabalhos em que você investigou as relações entre o ambiente familiar e privado e as estruturas sociais autoritárias do seu país. Em 2013, você publicou o livro de poemas Meus pais: Romeu e Julieta, tentando compreender a violência e o amor nas suas próprias memórias infantis. No mesmo ano, você estreou O estado selvagem: Espanha 1939, em que confrontou a narrativa familiar construída pelo seu avô, o patriarca e matemático que viveu dos 15 aos 55 anos de idade sob a ditadura de Franco, com o que poderia dizer a sua avó de origem camponesa, sábia e sempre calada. Escrevendo como se fosse ele – porque depois de tantos anos já tinha decorado o que ele dizia –, você apresentou essa história contra a projeção de imagens da sua família em Super-8, igualmente produzidas pelo seu avó ao longo do tempo. Depois da projeção, a sua avó octogenária subia ao palco para dizer o que nunca havia dito dentro de casa. E em 2015, ainda, você escreve e dirige Você vai para a guerra que começa hoje, em torno da história da vida do tio do seu avô, que teve dois irmãos executados pelos fascistas, foi para a Argentina e nunca mais voltou. O que eu quero dizer com isso, Pablo, você já conheceria bastante bem como uma sociedade autoritária e fascista se sustenta a partir dos gestos mais simples e comuns de pais, professores e patrões, e dos gestos mais corriqueiros dos seus pais, dos seus professores e dos seus patrões.

Se, muitos anos depois, lhe foi necessário voltar a esse assunto, voltar à infância, quando encontrou sem querer, na capa de um jornal, a notícia dos casos de pedofilia na escola em que você tinha estudado, é porque – talvez – outro motivo além do fascismo incrustrado nas estruturas sociais tenha te comovido. Toda a sua peça é a tentativa de expiação de uma dor, mas de qual exatamente?

Seria possível dizer que ela tem o formato de uma aula ou de uma palestra, mas se está aqui a mesa, a cadeira e o relato investigativo, não é a nós exatamente que você se dirige. Você não é o professor, você é o aluno que retorna ao cenário do professor depois de muitos anos. Quando a peça estreou, em 2022, esse aluno era o ator Gonzalo Cunill, o ator que era também o destinatário da carta que você escreveu. Então a peça passou alguns anos se apresentando em diversos países, até que um dia você chega ao México, sozinho, e decide, pela primeira vez, fazê-la você mesmo, ler você mesmo a carta que tinha escrito. E além disso, também pela primeira vez, descrever para aqueles que estão com você, e que hoje somos nós, a geografia da cidade e da escola onde tudo aconteceu, o Colégio Marista de Vigo, e fazer com que nós nos vejamos nessa representação da cidade. A essas mudanças, por acaso, somou-se uma outra: você abandona a primeira parte do título e fica só com a segunda, aquilo que a sua mãe sempre lhe dizia quando era inevitável falar de um assunto que não podia, porém, vir a público: Esto que no salga de aquí. Fica entre nós.

O que quer dizer esse duplo movimento, mais produzido pelo acaso que pela concepção estética? Quando você lê a sua carta, nos tornamos o seu destinatário, nos tornamos os atores a quem afinal a carta se dirige. O que isso faz de você, em cena?

Porque você nos: “Para fazer o que eu te peço você tem que entender/ que eu acumulei uma ira desmedida/ uma ira que não se cura com psicanálise/ uma ira que não deve ser conhecida por ninguém.” Só posso supor que essa ira nos aproxima mais da religião que do racionalismo que um dia aprendemos para lidar com as nossas dores. Então retorno ao comentário da minha colega na PUC, a atriz. A experiência de repressão do padre, como a sua, como a minha, pode ser a incompatibilidade da fé com a ideia de humano que nós visamos defender tão rapidamente ao recriminar os pedófilos, a incompatibilidade das imagens que nos obcecam, como a imagem de Deus, como a imagem de um menino, que transformamos em patologias escapistas, com o nosso teatro político. Me pergunto como uma atenção a essa incompatibilidade, para mim traduzida no seu gesto de assumir a performance da sua representação, pode nos permitir abandonar também a utopia humanista de uma emancipação geral da dor, que é mais absurda que o paraíso cristão. Talvez a sua dificuldade de expressar essas memórias, que hoje também foi a sua dificuldade de se expressar em outra língua, seja a mesma do padre que eu conheci e dos padres do Marista. A diferença, evidente, é que você está tentando. Por outro lado, este problema permanece: como conversar com os meninos sobre isso?

Com carinho,

João