POSFÁCIO de “Ninguém levou a juventude tão a sério quanto nós”
POR LEONARDO MARONA
Nunca pude querer uma casa. Sou aquele tipo a quem não foi dado esse direito. Até porque, como entendeu muito bem, duramente bem, o Pablo, a casa jamais é uma questão de direito ou de valia, não é uma questão geográfica, e nem mesmo física, material. A casa é, no máximo, uma ilusão compartilhada. Também não se pode construir uma casa. Ela se ergue – sem que percebamos – daquilo que abandonamos, ou do que foi abandonado em nós pela extinção dos sonhos. Uma casa é algo que abandonamos e que se abandona em nós, mas que nunca fica totalmente para trás, uma ideia-fantasma, por assim dizer, por ser também o mais infantil desejo, e que só existiu quando não nos foi possível perceber ou aproveitar. Somos esse deslocamento forçoso de transpiração nervosa, sob ameaças implícitas de mais alguma amputação perene. Somos um tempo novo em uma casa antiga.
Nosso engano relacionado a tudo isso – primo da ideia de família, de um futuro sustentável, de lembranças valiosas, de segurança diante da morte, todas as fantasias para que seja suportável viver uma vida insuportável – torna a casa um monstro, uma assombração, esperança holográfica em constante afastamento. Toda uma variedade de belas formas de experimentar o mundo conflui até uma linha que, quando ultrapassada, esmaga a boa vontade, inundando as maquetes da vida. Nos resta, então, vivir sin nada.
Essa coragem que soa como bravata tem um lado mais discreto e que detém seu charme, que é a maravilha de tentar viver duas vidas em uma. Primeiro, uma ânsia por algo. Depois, a humildade de nada ter. Tem aí uma juvenilidade séria, diante de uma existência de telhado frágil, imprópria para vendavais. Acho que isso a deixa mais próxima de um grito do que de uma lição. Sim, mas como fazer? Rodopiar dentro de um sonho confuso até a inanição, abraçados com nossos poemas fantasmagóricos que se afundam em nossas carnes tristes? Isso também não funcionaria, pois que os sonhos são projeções mentais etéreas, enquanto viver é da ordem do concreto, do cimento, da luta dentro de um corpo e para fora dele. Da ordem da Guerra. Só sei que nesse tempo vazio de guerras estive onde tinha que estar, nunca na paz.
Chega a ser bonito, às vezes, a percepção de como a vida é fácil de perturbar. Imaginemos, por exemplo, a terrível e silenciosa guerra entre fungos, glóbulos vermelhos, brancos, bactérias, células cancerosas, vermes, no interior do corpo (da casa?) de uma pessoa que atingiu um bom nível de paz interior e com o mundo. Por maior a paz, por mais alheios que estejam seus sentidos às aflições mais comuns, seu corpo é uma guerra – a guerra mais suja – e uma impossível de vencer. O próprio centro de produção da ideia de paz (o cérebro humano) é uma guerra sem precedentes, inevitável e perdida de antemão. E tudo que chamamos de “o melhor que nós temos” é constituído sempre pela constante mutação dos elementos da nossa química guerra íntima, cujos restos, contaminados, feridos, deformados, amputados, somos nós. Seremos sempre o que resta das guerras em seus intervalos, por dentro, por fora, com tudo, sem nada. E a cada cessar-fogo temporário, de cujos rastros refazemos, ao envelhecer, os sonhos de uma infância esmaecida, toda a conjuntura se altera (o corpo, a casa – já é outra guerra que não conheceremos mesmo depois de a termos combatido, ou desertado, ou tombado dentro dela), de modo que nossas estratégias de aprendizado por acúmulo de conhecimento e repetição – no caso do nosso próprio corpo, nossa terrível, derradeira, constante, insuficiente e maravilhosa casa inevitável – são apenas mais cansaço, uma ilusão útil e, às vezes, não muito.
Isso talvez fosse o suficiente para nos abstermos de toda poesia que não seja um despojo, um despejo, uma vergonha aberta. Uma guerra abraçada mesmo antes de perdê-la. Postergar perdê-la apenas pelo esporte de alguma atuação concebida em desespero e ternura. A ternura gelada de uma criança com olhos imensos, que viu mais do que podia e esqueceu menos do que deveria. Poesia: outra casa mais espaçosa, mas com um proprietário sovina. Quando a tive, não me lembro. São memórias de estilhaço. Quando me lembro, já não está mais lá.
Para meu entusiasmo Pablo fez algo que julgo muito difícil, e que só pode ser feito facilmente: irmanar pela derrota, espelhar pela vergonha. Nesse gesto ele traz à baila um sentimento que tem feito falta num mundo de vitórias esquemáticas sem aura: a vergonha explícita, uma vergonha redentora que nos faz segui-lo via sintoma, de onde ele arranca uma beleza boa de mastigar, um melado feito dos seus detritos, do seu amor pelas miniaturas do desterro. Agora que morrer jovem já não é possível. A vergonha quando matura vira fascinação. Não apenas a vergonha de se estar aquém, de não ter morrido quando era a hora, mas também a vergonha que tínhamos quando éramos crianças e nos sentíamos de fora. Vergonha dos sussurros indiscerníveis da nossa origem falha. Vergonha, também, daquilo que temíamos e desejávamos.
Muito por conta de nossas curtas conversas – em que falamos mais com as sobrancelhas, que talvez seja mesmo a melhor forma de falar sobre Ernesto Cardenal – acabei farejando um meio de me referir ao que senti quando li pela primeira vez a poesia do Pablo (justamente o livro Vivir sin nada, que ele me deu). Eu me senti um leproso abraçado por um louco em êxtase cuja maior loucura é seu amor. Eu amo porque é uma poesia trapista, pensei, uma poesia que, sem ter nada, entrega tudo e faz brotar. Tento me explicar e começo com o próprio poeta em questão, quando diz: a pureza é voltar cheio de sangue. Pablo faz, portanto, com palavras, o caminho do santo. O que gera poesia eterna, nos casos de entrega total, como com seus famosos conterrâneos Teresa D’Ávila e João da Cruz. Outro exemplo é estranhamente contemporâneo, o do noviço português Daniel Faria (1971-1999), cuja vida, inclusive, Pablo explora em uma dramaturgia.
Pablo é ator, escreve teatro. E vejo o vulto que narra seus poemas como uma espécie de saltimbanco que, nu como um Francisco, aceita a sombra do que lhe foi bloqueado como luz nova. Faz da sombra luz, da qual nada retém. Percebe que a sombra é mais importante, pois é sua unidade escura, imóvel, que permite à luz se espalhar como rachadura do querer ver. O amor, uma lepra cheia de perguntas. O amor que se acaba enquanto tentamos desvendar o tempo. A infância estrangulada por segredos e manchas e a escrita que faz uso do corpo inteiro. Um corpo que não conseguiu fazer o que o fora-do-corpo, o que o contra-o-corpo teria feito é um corpo mais corajoso, porque tem medo, mas não tem outra escolha. Nesses pequenos instantes, raras vezes, podemos dizer que a poesia é santa. Santo é aquele que enlouqueceu de invisível.
Mas há uma grande questão ainda: o poeta trapista não sabe o que está fazendo exatamente, porque, se soubesse, ele seria um poeta materialista, ou um poeta carreirista, ou filosófico, entre os quais não faltam, inclusive, bons poetas. Mas o trapista precisa ser despojado, despejado, para que, olhando o chão, possa inventar estrelas. Ao mesmo tempo, aqui, ele é a locomotiva de um drama maior, a peça teatral dentro de cada poema: a vida sendo a peça, com seus personagens espectrais; a poesia, como a verdade que tais personagens não puderam, de fato, pronunciar. A ponto de fazer a gente se perguntar: Mas este é quem? E aquela? Do que estão falando? Concordam, discordam? É uma briga de casal? Uma gangue? Com quem estamos falando?
Sim, isso acontece, sem dúvida. O teatro encharca o poema com reminiscências do que deveria ter sido, mas não foi, ou não pudemos ver sendo, quando fora. A lembrança, nesse caso, é a confirmação de uma impossibilidade. Ao lado está a verdade, que aparece e, no mesmo instante, evapora. A verdade se vive sem se perguntar por ela. Ou, como dizia outro Santo, o Agostinho: É algo que não sei quando me perguntam, mas sei quando não sou perguntado (ao falar do tempo, mas poderia ser deus, a existência, a verdade, o poema). A luz da vida é sempre temporária na confirmação do despejo. O motor humilde e gaguejante do pensamento sublimado. De uma dupla negação (da vida desejada, da vida que se leva), se chega a uma forma de ascese. Não estamos preparados para ela. As pessoas que mais amamos serão fragmentos de instantes numa imagem borrada, e não vai demorar muito. E será sem preparo. E devemos amar humildemente essa inviabilidade, acolher esse mistério dentro do coração, abandonando a cabeça.
A procura do santo é, portanto, oposta à procura do herói. O herói acumula grandes feitos, pois acredita que, com isso, engrandece a toda espécie. O Santo depõe as armas (geralmente o santo é um especialista deposto em armas) e observa do vácuo a dissolução da qual arrancará seu alimento. Ele aprende, aos prantos, a desejar, amar a dissolução. Pablo se torna em seus poemas o ator mais antigo do mundo, que é o palhaço, o saltimbanco, o poeta apedrejado do Satíricon. O que dá fluidez de leitura a textos que, do contrário, seriam talvez indigestos demais é o aspecto convidativo de uma graça úmida na elocução. E o santo seria o palhaço do qual não se pode rir. Mas todo santo é risível. Por isso nos envergonhamos em gratidão.
Se eu puder ser completamente honesto, que é o mínimo que posso fazer nesta carta talvez fora de hora, talvez fora do tom, para o Pablo, acho que estamos num bom momento para os poetas trapistas.Eu mesmo estou a caminho de me tornar um, se um dia conseguir esticar meus versos como extensão elástica do meu espírito de restos e incompreensão luminosa, para entender finalmente que toda lembrança é o figurino de um juízo, e que por isso é importante chamar de seda aos trapos, já que somos – nós os filhos do colapso e das epidemias – crianças sábias esgotadas, e a ternura está em dar cores aos trapos com saliva duvidosa, poder perder tudo em um só dia, ir ao encontro dos outros de uma forma clara. Numa vida que, pela simples utopia de um gesto absoluto, na maior beleza da maior catástrofe, seja essa casa que anda, enquanto, com as mochilas vazias, como nos sonhos, ainda guardamos algo.